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«Oh! Se puderes, forasteiro, vem a Ponte de Lima num dia de mercado».
É às segundas, de quinze em quinze dias (às outras, chama-lhes o povo solteiras)...
Foi sempre muito concorrida dos povos da região - e, segundo rezam documentos antigos do arquivo camarário, em velhas épocas passadas eram muito frequentadas pelos galegos. Ainda há muito quem hoje venha de Caminha , pela serra. de Coura, Viana, Barca e Arcos chega muito gado . Não faltam a ela os ourives de Braga, as burriqueiras de Prado, dos linhos e tantas gentes mais. Mas vou tentar descrever-ta.
A manhã é alegre, há cor, alegria, doçura, sons de bronze cristão e risadas de vermelho minhoto na atmosfera e nos longos ridentes dos montes... Anda alegria no ar. Na ponte batida de luz e sol passa um contínuo formigueiro de povo. E todos os caminhos: estradas brancas poeirentas, carreiros de montanha, atalhos de portelas, todos trazem gente à feira; gente e gado. Mulheres muitas mulheres, lavradeiras de todas as freguesias, aldeias, lugares e lugarejos, todas levam sua cesta, seja o vindimeiro alto e fundo de quatro algueires, seja o pequenino açafate de Barcelos, rendilhado e embrincado, onde mal cabe uma mão-cheia de qualquer coisa a vender - e se mais não tem, arranja uma dúzia de ovos, meio quarto de feijão, um punhado de fruta do tempo - e ela ai vem com seu funeralzinho.
Paremos um pouco, sobre a ponte, encostados às guardas. Passam bois à soga, juntas de touras, lindas como os amores, de olhar meigo e focinhito negro, húmido, lizidio, pedindo carícias. Ciganos locais (o cálebre Raro, de Lage, outros, tantos da província) cruzam nas suas garranas fugideiras, nesse paculiar travadinho em que aguentam léguas de enfiada. Alguns garranos trazem argolas nos boletos traseiros, e, ao correr, tilintam como pulseiras escravas. E tudo é alegria! Pressurosas, sorridentes, falando alto - todas se conhecem - as moçoilas caminham, andar elástico, cesto à cabeça, numa verticalidade e elegância bem diferente, e tanto para melhor, da canastra ovarina. Aqui o cesto é redondo: o equilíbrio da canastra, menos estático, obriga à inclinação dianteira.
Esguias, estilizadas como figuras de friso helénico, elas avançam. Saias muito compridas, de muitos folhos e pregas, dois galões na fímbria, chambres cingidos na cinta , peitos altos enforcados no espartilho de varas de junco, cintura império - estas mulheres que escorraçaram os soldados napoleónicos, enlouquecidos pelos galanteios que na Espanha e Itália lhes regateavam, moças lindas que tão pouco aceitaram os esbeltos súbditos de Filipe II...
Gráceis, altivas como garças reais descidas das montanhas sagradas - essas sagradas montanhas da Ribeira-Lima - elas seguem ridentes, lindas, para a feira, para o amor talvez, para a Vida...
Passam carros de bácoros, muito lavadinhos (de noite se levantam as raparigas do casal para aquela investidura). Grunhindo, obesos, vagarosos, torcendo caminho, é um nunca acabar de porcos, não em varas como para o Sul, mas cada um acompanhado da sua dona, quanta vez de senhoreta e açafata.
Carros, cestos, sacas, feixes - todo o peso, todo o trabalho é para a mulher. Eles, os moços: de alfádega atrás da orelha e marmeleiro ou lódão nas unhas, as mais das vezes de guarda-chuva negro, quando não trazem o palhinhas citadino ou o panamá de quem foi ao Brasil, se não a máscula camisa caqui e as grevas dos estoques americanos da França.
E os que andaram fugidos à militança ou traídos pela peseta nas terras da Galiza, já trazem a gorra azul e a alpercata dos irmãos de Rosália de Castro.
Que o Português, o minhoto, é assim! Se emigrasse para Inglaterra vinha-nos a jantar de smoking e a jogar golf nas chãs da nossa ribeira.
Valha-nos a heróica, tradicional e linda mulher do Minho. Deus te abençoe, Mulher!
Mas, perdidos na beleza do ambiente e na cor meiga, que vai aquecendo e pintalgando lentamente, como feiticeiro pintor poeta, os grandes panos de fundo - esquecidos ainda no filme que passava, aqui nos quedamos largo tempo, em cima da velha ponte que o marido de D. Constança nos ergueu.
O rumor da feira chega-nos diluído, sem gritos estridentes como essas feiras de França ou quermesses de ar livre das cidades da Europa Central. E como o marulhar da vaga em dia claro e sereno. Olhemos para o extremo areal sem fim: aí se desenrola a feira. A ponte corta-a pelo meio. Do lado norte é a feira do gado.Bois, apenas juntas de bois de trabalho. Renques múltiplos, muito alinhadinhos, muito geométricos, filas paralelas norte-sul, costas para o rio, mal deixando passar uma pessoa entre elas (que tem de a gente roçar uma anca ou pegar num chifre para abrir caminho). Os mais lindos, os mais corpulentos, à frente ao sopé da escadita que desce do Largo. Juntas de alto preço, de trinta e tal, de quarenta notas. Centenas de juntas...
Lá para o meio são os bois novos (a dois dentes, consoante...) e as touras que já cangam. Ao fundo, na parte do areal que toca na água, andam soltas as vacas leiteiras, poucas, quase todas montanhesas, estatura pequena, cabreiras chamadas. À volta brincam-lhes as crias, pequeninas, tenrinhas, quase cor-de-rosa na sua pelagem fulva.
Fitas de nastro, vermelhas, cingem-lhes a testa. Prendem muitas vezes um saquinho de bruxedos, onde cuidadosamente foram cozidos arruda, alhos, fermento, sal e outras feitiçarias.
As vezes vai a mezinha presa, com a sua licença, na vassoura do rabo.
Que o gado é sempre de Santo Antoninho e, se se vende bem, paga-se-lhe um repique no sino da Torre Velha, que toda a manhã da feira alegremente badala.
Mas o saquitel de bruxedos é cá por causa das invejezidades e outras coisas que secam o leiteou o põe raiado de vermelho. Coisas...
Neste extenso quadrilátero não entra um carro, um cesto, uma barraca - apenas as juntas de bois - quase todos barrosãos, dessa linda, sud-raça vianesa de focinho preto luzidio, esses boizinhos que o literato Cunha e Costa tanto apreciava. Na feira de Ponte nunca se encontra uma junta de bois galegos - é a raça que o lavrador daqui não aceita. E vacas turinas raro aparecem também. Do outro lado da ponte: areal do sul, ainda mais extenso, formando quase um círculo oval, imenso que vai fechar-se ao fundo, lá muito ao longe, quando o rio vai de tangente beijar a capelinha da Guia, no topo da Avenida dos Plátanos. O resto da feira, tudo o que não é gado bovino, aqui se desenrola. No areal, que na véspera não tinha nada, em sua areia deserta como um recanto da Núbia, há ruas de barracas e de cestos enfileirados, ruas paralelas, perpendiculares, formados por teorias de mulheres acocoradas atrás de uma cesta, de uma saca ou apenas de uma abada.Os lenços de colorido variado, os chambres em meios tons, pespontam aquela massa uniforme de manchas garridas, toando bem.
Cortemos a Praça de Camões, largo principal junto à ponte, e desçamos lentamente a percorrer a feira. Mal descidas as escadas, onde se merca o pão fresco em grandes padas, estão os tabuleiros dos funileiros (leia-se latoeiros ou picheleiros); na margem do passeio D. Fernando, as barracas dos ourives (as únicas de madeira de todo o mercado): arrecadas, contas, cruzes, corações, cordões de oiro, novos e peso, oiro, lindo oiro das lavradeiras do Minho. Entre as barracas abre-se um caminho para a feira do areal.
À frente, mesmo rente aos ourives, junto a uma mesa, a enfiadeira de contas. Fresca toalha arrendada, meadas coloridas à mão, lá está ela numa azáfama, a enfiar contas de oiro lavrado às freguesias que se achegam. Lindo quadro de uma feira do século XVIII...
Cortando a multidão, porque os arruamentos são estreitos e o minhoto anda devagar sem nunca olhar onde põe os pés (ou antes, os tamancos e o varapau), passemos do cais para o areal. È um nunca acabar: frutas, sardinhas, linhos, milho, centeio, feijão, quase tudo por miúdos: uma dúzia de maçães, um pratinho de figos, dúzia e meia de ovos, um casal de coelhos, um par de galinhas pedreses - seu pires de tremoço já cozido e temperado.
É a primeira rua. Para além, são as tendas das barraqueiras da feira, onde a aldeia topa tudo quanto precisa, pendurado, dos barais que aguentam a barraca, se um pé de vento a não borca. Espelhinhos redondos encaixados em lata, talheres de ferro, peúgas de fio branco orladas a escarlate, faixas negras, calças de cotim preto e lista branca, chitas garridas, flanelas de algodão, baetas de vermelho e preto para embrulhar os meninos, morins para os vestidos ricos (e carros) das moçoilas da aldeia, lenços amarelados de algodão a substituir o lindo lenço minhoto que «vinha da Alemanha», e tanta, tanta coisa mais...Oh! grandes armazéns e galerias, armazéns verticais e horizontais, Boucicot - aqui aprendeste!
Depois vêm as barracas do linho, os atoalhados com ponto aberto, as toalhas de mãos e de rosto com Lembrança ou amizade, delicadamente bordado a branco sobre branco.
(...)
Caminhemos. Aqui anda-se melhor, apesar da areia funda, porque há mais largueza. E a feira dos barros, esses barros de Alvarães e de Barcelos; panelinhas assadeiras de forma bizarra e tradicional, travessas de formato e desnho herdado do século XVIII, pratos coloridas como no Império, granadeiros napoleónicos de assobio nos pés para os garotos brincarem, e tantos assobios mais e panelinhas e cornetas de barro, esses temíveis clarins que o garotame estridula toda a tarde da feira (e felizmente se quebram ao fim do dia). (...)
O areal está quase a terminar.
Passemos pela feira dos bácoros, vamos subir novamente ao Passeio, onde se prolonga a venda dos porcos. Por aqui é o mercado das ferragens: bandejas de madeira pejadas de pregaria romana para os carros de bois, de ferrolhos para portais de tacholas para os socos e as chancas, de grotescas e ingénuas fechaduras para as arcas e baús.
E as barracas dos tachinhas dos arrabaldes de Braga, toscas mesas de pinho sob taipal de lona grosseira; aí se encontra, aos montinhos, toda a classe de tacholas e pregaria.
Mais adiante, frente aos ferradores, enorme balança portátil junto aos rodados de carros de bois, aos pares. E seus aros, aos pares também, hirsutos e aguerridos, lembrando carros de combate assírios.
Não esquecer a pranta mimosa, que tanto se vende na feira de Ponte.
Junto à cadeia - que tudo tem seu lugar marcado - os varapaus de lódão e as varinhas de marmeleiro.
Caminhando atrás, encontramos os vendedores de calçado: socos de forro vermelho, chancas para o tojo, chinelinhas de verniz pespontadas a branco para a missa do dia. Por baixo da ponte, pelo areal fora, lá pelas beiras, come-se nos tascos ao ar livre: bacalhau frito, sardinha assada, boroa e a obrigatória malga de verdasco.
Demos uma voltinha pela feira - é pequena de área, abrange-se toda num só golpe de vista (é a sua beleza!) mas tem tanta coisa, é tão variada que é impossível descrevê-la. Depois, além do geral das feiras, há a especialidade da época para época, as caroças, a feira do mel nas vésperas do Natal, em que o garotio anda de colher de pau a roubar mel às mulherzinhas. Há o pão coado, as papas de Afife que aqui se vêm vender, o pão doce da feira, tanta, tanta coisa!...»
Conde D`Aurora
Roteiro da Ribeira-Lima
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